Foi um dia alucinante. Teixeira dos Santos diz publicamente que o país
precisa de ajuda e Sócrates, isolado, anuncia a má nova aos portugueses.
Cavaco Silva tinha dado o mote no discurso de posse para o seu segundo
mandato presidencial. O governo já ia no PEC III de austeridade e
preparava-se para um quarto, hoje muito célebre, Programa de
Estabilidade e Crescimento. Depois de uma impressionante manifestação
nas ruas de Lisboa a 12 de Março, Sócrates corre contra o tempo e os
mercados. Os juros da dívida sobem, os banqueiros fazem ultimatos na
televisão e o PSD de Passos Coelho, até aí ao lado do governo, chumba o
PEC IV negociado por Lisboa com a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e
o Banco Central Europeu. Uma emissão de dívida a dez anos marca o fim
da resistência quando os juros pagos por Portugal ultrapassam a linha
vermelha dos 7% e Teixeira dos Santos rompe com Sócrates e diz ao
“Jornal de Negócios” que a ajuda internacional era inevitável. Algumas
horas depois, Sócrates aparece nos ecrãs televisivos em mangas de camisa
a perguntar ao seu assessor de imprensa: “Ó Luís, vê lá como é que
fico.” Minutos depois, oficialmente, anuncia ao país o pedido de ajuda
financeira às instâncias europeias e ao Fundo Monetário Internacional.
Sai de S. Bento logo a seguir rumo a Belém para apresentar a demissão a
Cavaco Silva.
Portugal estava à beira da bancarrota, sem governo e com um processo
eleitoral pela frente que só iria terminar dois meses depois com a
realização das legislativas antecipadas.
O governo demissionário negociou então com a troika - Comissão
Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional - um
Memorando de entendimento em troca de um empréstimo de 78 mil milhões de
euros. O documento é assinado pelo executivo socialista, pelo PSD de
Passos Coelho e pelo CDS de Paulo Portas.
Portugal era o terceiro país da zona euro a pedir ajuda externa, depois
da Irlanda, o primeiro, e da Grécia, o segundo. Um Memorando que José
Sócrates anunciou ao país como uma vitória portuguesa. E já lá vão dois
de muitos anos de austeridade e recessão económica.
«i»
Sem comentários:
Enviar um comentário