Mário Soares alerta para o perigo do caminho seguido pelo Governo de
“não dialogar nem explicar as medidas difíceis” aos portugueses.
O ex-presidente da República defende que o Executivo, liderado por
Pedro Passos Coelho, está a "isolar-se cada vez mais do povo". Mário
Soares diz que a culpa não é apenas das medidas "impopularíssimas que
tem vindo a tomar", mas também do facto de não dialogar e explicar aos
portugueses essas medidas. O histórico socialista conclui assim que "as
pessoas não compreendem qual a estratégia do Governo para combater a
crise".
"O nosso Governo, legítimo, porque resultou do voto popular, está a
isolar-se cada vez mais do povo. Não só por causa da crise e das medidas
impopularíssimas que tem vindo a tomar - dos cortes que quase só
atingem os trabalhadores mais pobres, os desempregados, os precários e
boa parte da classe média -, mas porque não dialoga com os portugueses,
não explica as medidas que toma, avança e recua em silêncio sobre
medidas tomadas, e as pessoas não compreendem, por mais que o desejem,
qual é a estratégia do Governo para vencer a crise. A austeridade, por
si só, não leva com certeza a nenhum lugar", defende Mário Soares num
artigo de opinião publicado hoje no Diário de Notícias.
Mário Soares dá o exemplo da manifestação das freguesias para
ilustrar o facto de o Governo estar de costas voltadas para os
portugueses. "No sábado passado, a "leizinha", como lhe chamou António
José Seguro, quando foi anunciada pelo ministro Relvas, sem ouvir, como
seria natural, os principais interessados, teve uma reacção unânime das
freguesias portuguesas. De norte a sul, desfilaram, em sinal de
protesto, pelo centro de Lisboa". "Como é que o Governo não compreendeu a
impopularidade da lei que anunciou, depois de ter recuado, por razões
políticas que estavam à vista, da ideia peregrina de unir os municípios,
para que as Finanças reunissem mais fundos?", questiona o histórico
socialista.
Soares acusa mesmo o Governo de não defender a identidade e coesão do
país. "É caso para dizer que a obsessão dos cortes ordenados pela
troika faz esquecer ao Governo a necessidade de defender a nossa
identidade nacional e a coesão entre os portugueses. Num momento de
crise - em que o desemprego e a criminalidade crescem -, é
particularmente importante evitar o mal-estar e o pessimismo profundo
que invadem os portugueses: assim não vamos longe, infelizmente".
No mesmo artigo de opinião o ex-presidente da República acrescenta
que os portugueses "começam a ter a sensação de que quem manda é a
troika e que Portugal". "É um verdadeiro protectorado comandado, não
pelo Governo legítimo mas pelo exterior. Não há patriotismo que resista a
uma tal situação".
«Económico»
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