Escrever sobre as “cooperativas alpiarcenses” é uma proeza insólita, se tivermos em atenção a quantidade enorme de cooperativas que foram criadas após o “25 de Abril” e as histórias que as rodeiam.
As histórias contadas por pessoas envolvidas nos processos revolucionários da altura são de tal forma rocambolescas e cheias de enredos que na verdade dava matéria para uma autêntica “novela”. Do que nos contaram e daquilo que o tempo apagou, ficamos a saber coisas do arco-da-velha que não passa pela cabeça de ninguém.
Actos de heroísmo e de cobardia, traições e oportunismo, sacanices, de tudo um pouco se ouviu no deambular de porta-a-porta para termos a certeza daquilo que queríamos saber e escrever. Tantas contradições que chegamos à conclusão que o melhor a fazer é esquecer o assunto porque grande parte dos intervenientes já não está no “mundo dos vivos”. Aqueles que nos contaram algumas “historietas” recusaram-se a “dar a cara” ou a assinar um “termo de responsabilidade” para publicarmos aquilo que nos disseram. Como tal “Jornal Alpiarcense” pouco pode adiantar porque os testemunhos e provas não podem ser de conhecimento público.
Assim, a “página principal do enredo” fica na memória do autor deste texto porque impedido foi na publicação em virtude da recusa dos poucos protagonistas existentes.
A desculpa de que a «época era de efervescência» não é razão para desculpar os maiores disparates individuais oriundos da política então vigente, porque os intervenientes, eram pessoas com plena consciência do que estavam a fazer.
Podemos adiantar que todos os actos praticados na época mais não foram do que os reflexos da vingança para com a opressão. As pessoas envolvidas nas situações e no «acabar com os patrões» levaram-nas quase à loucura, permitindo que «vale tudo menos tirar olhos». Até as autoridades fechavam os olhos ao que se fazia e tudo era permitido.
Mas as «coisas que se falam por Alpiarça quanto ao oportunismo de algumas pessoas, correspondem à verdade» assim nos confirmou quem nos quis ouvir mas que se recusou a prestar declarações escritas para que não fossem tornadas públicas.
Temos pena de não o poder fazer, mas as circunstâncias e as consequências que daqui poderiam advir para os nossos entrevistados levam-nos a ter que encerrar aquilo que nem sequer começou.
A todos aqueles que agora possam dizer por outras palavras o que aconteceu, falta-lhes a veracidade e autenticidade da afirmação porque os verdadeiros protagonistas não o fazem por causa das sequelas, logo: o que for dito «serão apenas vozes do povo que nada sabe» porque situações como o «emigrante que deixou o pais onde trabalhava já a quase vinte anos para vir para a sua terra natal (Alpiarça) passando de empregado a patrão, ganhando mais em meia dúzia de anos em Alpiarça do que aquilo que nunca conseguiu na sua “Amada França”.
São páginas que temos que omitir ou não relembrar como alguns “patrões” que espezinharam e exploraram os seus empregados, após a confusão das “cooperativas” dando a «volta ao texto» para passarem a “cooperantes” conseguindo assim que as suas empresas não fossem “ocupadas” como não pagassem indemnizações a quem lhes iria fazer frente. Foi nesta altura que tudo que «era empreiteiro» passou a ser «director cooperante». De pouco valeu.
Que o passado fique na memória de cada um e que as “ocupações em Alpiarça” continuem a ser «coisas do povo» como nos disse um interveniente directo nestas “embrulhadas”.
Resta-nos a mais ruinosa cooperativa existente em Alpiarça, a “AgroAlpiarça”. O texto que segue foi-nos retransmitido fielmente por quem estava dentro da situação e participou nas mudanças todas. O seu nome é omitido porque assim nos foi exigido, caso contrário o texto que se segue não seria publicado.
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A antiga Cooperativa “Unidade” foi a única na época de 1974/1975 que foi ocupada com os portões fechados e com a combinação de todos os empregados porque foi o próprio proprietário (Jacinto Falcão) que pediu ao então “feitor e empregado de confiança” que ocupassem simbolicamente todos os terrenos da família “Duarte” porque a situação financeira estava de rastos.
Preferiu o principal “Duarte” que os seus terrenos fossem ocupados pelos seus próprios trabalhadores caso contrário passariam para a posse da banca já que se encontravam quase todos hipotecados.
Para que nada disto acontecesse, como não aconteceu, os herdeiros pediram ao “funcionário de confiança (proposto e nomeado para o efeito) que os trabalhadores ocupassem pacificamente todos os bens porque Jacinto Duarte sabia por informações obtidas, de pessoas influentes na altura, que todas as dívidas para com os proprietários das «terras ocupadas» ficavam livres de todos os pagamentos de dívidas que existissem sobre os seus bens.
Fio assim, que simbolicamente e com o portão fechado foram ocupados tudo que era pertença da “família Duarte” e respectivos herdeiros de João Duarte”.
Depois da tomada da posse destes bens, dinheiro existente em tesouraria praticamente não existia. Foi adiantado uma determinada quantia pelo novo gestor, que tinha sido aconselhado pelo Jacinto Duarte (filho de João Duarte) nas formas de conseguir a restituição da quantia adiantada e ainda conseguir a obtenção de subsídios por parte do Ministério da Agricultura que não altura foram colocados à disposição dos novos ocupadores.
Para que estes pudessem ser concedidos tornava-se necessário a existência de uma Cooperativa que por sua vez poderia então candidatar-se aos subsídios.
Foi assim que nasceram «como cogumelos» novas cooperativas em Alpiarça incluindo a “Unidade” que sem pernas para andar a Câmara envolveu-se no processo, talvez por conveniência politica.
Foi assim que a Câmara interveio e reestruturou a “Cooperativa Unidade” cujo maior cooperante era a própria autarquia.
Consequentemente todos os bens da cooperativa passaram a ser propriedade da Câmara para ao fim de alguns anos a “Unidade” ser transformada juridicamente em “AgroAlpiarça” (AgroAlpiarça, Produção Agrícola, Cooperativa de Interesse Público de Responsabilidade, Lda.)
Hoje a “AgroAlpiarça” é uma empresa sustentada a “balões de oxigénio” pelo seu principal cooperante, a Câmara, que também gere o pouco património existente e que ano após ano vê os prejuízos aumentaram.
A sua dissolução não está prevista e quase impossível de levar a efeito, pela simples razão que seria considerada uma “insolvência politica” e com consequência penalizáveis para quem tome esta iniciativa politica.
Daqui as suas necessidades de sobrevivência continuarem a ser alimentadas pela Câmara porque a decisão final do encerramento não é a mais aconselhável.
A estratégia que continua a existir é o arrendamento e terceiros que por sua vez suaviza os prejuízos para com o maior cooperante e mantêm a existência jurídica da “Agroalpiarça”.
De salientar que a “AgroAlpiarça” tem sido nos últimos anos um autêntico trampolim para a existência dos mais variados gestores, feitores, administradores e outros afins que num sumário: nenhum conseguiu diminuir a crise que atravessa esta entidade, último símbolo alpiarcense da resistência cooperativista.
Como curiosidade historial:
As dificuldades financeiras e as hipotecas existentes para com os herdeiros que originou no pedido da “ocupação dos terrenos” para com o “feitor” na altura, pessoa de confiança para com a “Família Duarte” eram oriundas de despesas e empréstimos por causa das consequências da “geada negra” que «queimou praticamente todas as vinhas» exigindo assim a renovação da plantação.
No entanto, quando da “ocupação simbólica” e pacifica dos terrenos dos “Duarte” os herdeiros deixaram «vinho na adega, no valor de trinta mil contos» cujas receitas, vindas da venda do vinho deu para sustentar a “Unidade” durante alguns anos como ainda para comprar um “Secador de Milho” e substituir o quadro de pessoal, cujos trabalhadores, vindos dos «antigos patrões» impediam o rejuvenescimento da “Unidade”.
Finda a venda deste vinho e gasto o lucro obtido, desde daí até aos dias correntes a “Unidade ” continuou em “queda livre” para continuar na “AgroAlpiarça”.
Afinal as “Cooperativas de Alpiarça” fazem parte da história alpiarcense.
NR: “Jornal Alpiarcense” agradece ao antigo fundador e gestor da “Unidade” a compilação e cedência destas informações.
António Centeio