Porque é merecedor de destaque transcrevemos parte do discurso do ex-presidente da Câmara de Alpiarça, Raul Figueiredo, quando da realização das “Jornadas Autarquias” realizadas recentemente em Alpiarça.
Na comunicação que transcrevemos (com a devida vénia à CDU onde obtivemos o discurso que se segue) podem os leitores encontrar quase toda a realidade como um pouco da história de Alpiarça após o 25 de Abril.
Comunicação de Raul Figueiredo nas Jornadas Autárquicas
Estas jornadas de reflexão sobre o passado, presente e futuro do trabalho da CDU nos Órgãos Autárquicos, realizam-se num momento particularmente crítico da vida do nosso Pais e do nosso povo, como consequência da concretização do pacto de agressão acordado entre a troika estrangeira e a troika nacional, com o apoio do Presidente da República.
A proposta de Orçamento do Estado para 2012, apresentada pelo governo PSD/CDS, não deixa dúvidas quanto aos objectivos pretendidos, traduzidos na degradação acelerada das condições de vida dos trabalhadores e do povo, e no afundamento de Portugal no plano económico e social.
É neste contexto, de extrema gravidade, que me proponho falar do desenvolvimento de Alpiarça, uma terra com uma história de resistência e luta, que muito nos orgulha.
Falar de Alpiarça hoje é, por isso, um desafio e um dever que sinto e que pretendo registar como testemunho do profundo respeito por todos os homens e mulheres que se bateram por um Pais livre e democrático em que as condições de vida dos trabalhadores e do povo fossem minimamente dignas.
Aos que, com sacrifícios de toda a ordem, até da própria vida, se dispuseram a percorrer esse caminho pedregoso, mas de futuro, aqui fica o meu gesto de sentida gratidão e homenagem.
Alpiarça foi, até ao 25 de Abril de 1974, uma terra ostracizada pela ditadura salazarista, que tudo fez para que o atraso económico e social se acentuasse em relação a concelhos vizinhos. A decisão reclamada pelos grandes proprietários agrícolas para que a fábrica da Compal se instalasse em Almeirim é disso um exemplo. Sem empresas e sem indústria os assalariados agrícolas tinham como certa uma vida plena de dificuldades e de miséria.
Alpiarça era antes do 25 de Abril uma terra muito pouco desenvolvida, em que a principal actividade económica - a agricultura - garantia uma ocupação marcadamente sazonal. Por força desta circunstância muitos operários e assalariados agrícolas tinham que procurar o sustento das suas famílias fora da terra. Para o trabalho ia-se a pé ou de bicicleta, no caso dos homens. Outros, mais afoitos, ou com mais necessidades, passavam “a salto” as fronteiras do nosso País a caminho de terras de França ou de outras paragens mais longínquas. As infraestruturas que garantiam o acesso ao ensino e educação e aos cuidados de saúde eram escassas, não obstante o esforço e a entrega abnegada dos seus profissionais. O abastecimento público de água era muito limitado. O abastecimento de géneros alimentícios era garantido pelo mercado (a praça como era conhecida) e por algumas mercearias dispersas. Os que podiam matavam o porco que a salgadeira conservava para o resto do ano. As dores e amarguras da vida afogavam-se nas tabernas, às vezes para esquecer os perigos a que estavam sujeitos os familiares que combatiam numa guerra injusta.
A limpeza urbana era assegurada por uma carroça puxada por uma mula.
Não havia tratamento de esgotos nem recolha de lixo e as estradas e caminhos de terra batida ou de pedra solta estavam ao abandono.
A iluminação pública era incipiente e a energia eléctrica só estava ao alcance dos mais abastados.
A protecção civil resumia-se a um ou dois carros de combate a incêndios e a uma ambulância velha que transportava os doentes e os acidentados para o hospital.
Os velhos, nem todos, tinham o “asilo” que aliviava o sofrimento, antes da morte certa.
Os jovens aprendiam a nadar no pego do carril e no pego dos salgueiros. Eram as nossas piscinas municipais.
A bola de trapos era chutada pelo pé descalço protegido pela pele dura e calejada. As roupas eram lavadas à mão na vala de Alpiarça ou no lavadouro municipal.
Para completar o quadro de miséria e opressão, a PIDE, no seu quartel, tratava dos mais “rebarbativos”, quase sempre com guia de marcha para o hospital ou para a prisão. Ser comunista era considerado crime de lesa-pátria.
Esta era Alpiarça no tempo de Salazar e de Caetano.
A tudo isto resistia um povo que lutava por uma vida melhor. Que se organizava em comités de greve animados por muitos militantes comunistas e outros democratas. Que se refugiavam nas colectividades “Águias” e “Música” em que as secções culturais eram autênticos viveiros de informação e propaganda anti-regime. Outros mais activos foram forçados a abandonar as suas casas e famílias para trabalhar na clandestinidade. Mulheres como a Maria Albertina morreram para darem à luz o filho que o ventre nutriu.
Para o povo trabalhador e oprimido a vida era realmente muito dura.
O 25 de Abril de 1974 foi, no essencial, obra de um povo sofrido e humilhado, que nunca baixou os braços e que à fatalidade disse não.
Foi com o 25 de Abril, que alguns querem votar ao esquecimento, que Portugal saltou e pulou. Uma data histórica em que o povo unido em torno dos militares de Abril, operou grandes e profundas transformações no nosso Pais.
A reforma agrária e o movimento cooperativo, as nacionalizações da banca e dos seguros, a liberdade conquistada e o direito de livre associação e reunião, o direito à greve e manifestação, a criação de sindicatos livres e democráticos, a contratação colectiva e o trabalho com direitos, a educação e saúde para todos, o direito a usufruir do desporto e da cultura, os melhores salários e os apoios sociais, o direito a ter uma reforma ou uma pensão, as eleições livres e a aprovação da primeira Constituição democrática e progressista, o poder local democrático, ainda hoje o principal motor do desenvolvimento do Pais e das regiões.
Estas são as principais conquistas de Abril que os governos do PS, PSD e CDS, teimaram e teimam em destruir, ao longo de mais de 30 anos de políticas de direita que aos poucos fizeram renascer e reagrupar os grandes grupos económicos e financeiros, alguns dos quais verdadeiros sustentáculos da ditadura de Salazar e Caetano, durante quase 50 anos.
Em Alpiarça, comunistas e democratas sem partido, arregaçaram as mangas e deitaram mãos à obra.
Estava quase tudo por fazer.
Esse foi o grande e empolgante desafio da Comissão Administrativa que tomou conta dos destinos da nossa terra, ainda antes das primeiras eleições para os Órgãos Autárquicos. Lembro-me, a propósito, das histórias verdadeiras que o Álvaro Brazileiro, o Joaquim Matias e outros camaradas contavam quando recordavam esses momentos difíceis, em que no fim do mês havia o risco de não haver dinheiro para pagar salários, coisa que nunca sucedeu, por empenhamento próprio e sacrifício desses democratas que nunca devemos esquecer.
Com as primeiras eleições para os Órgãos Autárquicos em Alpiarça, uma lista de comunistas e outros democratas ganhou as eleições.
O povo rejubilou de contentamento, mas as responsabilidades dos primeiros autarcas do nosso concelho eram enormes. As expectativas estavam criadas e os primeiros passos para uma democracia viva e participada tinham que ser dados.
Foi preciso pensar com visão estratégica.
As necessidades de novas habitações eram clamorosas e urgentes. Essa foi a primeira resposta dada com sucesso através de um programa que pôs de pé centenas de novas casas construídas a custos controlados.
A preocupação com os mais necessitados esteve sempre presente nas opções e escolhas da CDU.
A atenção e o carinho dispensado aos idosos é disso um bom exemplo. As novas instalações do Cantinho do Idoso não existiriam se não fossem os múltiplos apoios prestados pela Câmara CDU.
A rede de abastecimento público de água precisava urgentemente de ser ampliada.
Hoje a cobertura é quase a 100%.
As redes de saneamento tiveram que ser construídas de raiz.
Um trabalho gigantesco e dispendioso que as ruas, entretanto pavimentadas, não deixa ver. Também no domínio da Educação e Saúde se deram passos gigantescos, o mais recente dos quais foi a construção do novo Centro Escolar. O planeamento, ferramenta fundamental do desenvolvimento, esteve sempre presente. Com visão de futuro foi discutido e aprovado, com a participação de todos, um Plano de Ordenamento do Território e Urbanismo, que definiu, de forma distinta, as diferentes zonas de expansão, crescimento e desenvolvimento do Concelho.
O Complexo Turístico e Recreativo dos Patudos, com a Casa dos Patudos (quase remodelada), a Barragem, as Piscinas Municipais, o Parque de Campismo (em vias de remodelação), a Reserva Zoológica, há poucos anos rebaptizada é, ainda hoje, a obra mais emblemática usufruída pelos Alpiarcenses e por milhares de cidadãos que nos visitam ou que participam nas actividades desportivas e de lazer que os diferentes equipamentos proporcionam.
A Zona Industrial e o Recinto da Feira foram e são fundamentais para atrair empresas e criar emprego, para dinamizar a actividade económica do Concelho.
As feiras, Alpiagra e Feira do Vinho e, mais recentemente, o Festival do Melão são importantes certames de apoio ao comércio, restauração e actividade económica local e regional, que atraem a Alpiarça muitos milhares de forasteiros. "
As feiras, Alpiagra e Feira do Vinho e, mais recentemente, o Festival do Melão são importantes certames de apoio ao comércio, restauração e actividade económica local e regional, que atraem a Alpiarça muitos milhares de forasteiros. "
MEMÓRIAS DO TEMPO
(Fotos: CDU)





4 comentários:
o grande responsavel politico pelo desastre eleitoral da CDU á 14 anos atrás vêm falar de visão estratégica ? Ai que barrigada de riso !!!!!!!!!!!!!!! AHAHAHAH
O texto aqui reproduzido relata a realidade dos factos.
Está de parabéns Raul Figueiredo pela maneira singela que o fez
Aos autarcas da CDU que mudaram a história de Alpiarça a minha singela homenagem e agradecimento por tudo o que fizeram pela minha terra.
Alpiarça muito lhes fica a dever.
o texto só é pena não ter sido discursado por alguém com credibilidade politica. De resto, está muito bom. Este Raul até escreve bem e suspeito que outros textos que já li por "aí" também tem a marca dele. E MAIS NAO DIGO
muito bom texto. Raul Figueiredo foi um bom presidente de câmara. deixou montes de coisas aprovadas que depois a gestão Rosa foi só dar um empurrãozinho. os socialistas não admitem isso. esperemos que um dia o Sr. Pais e a Dr.ª Gabriela faça uma justa homenagem ao Raúl Figueiro e reconheçam publicamente que herdaram muitos projectos aprovados no mandato do Figueiredo. Só assim se fará a devida justiça.
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