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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Deixem-nos trabalhar!

Parece que o ministro da Economia foi criticado um dia destes por não ter ido ao Parlamento quando se discutia a questão dos despedimentos.
Esta crítica resulta de uma forma de encarar a política com a qual nunca concordei.
Naquele mesmo Parlamento, há cerca de 20 anos, Cavaco Silva disse uma frase que ficaria célebre: «Deixem-nos trabalhar!».
A capacidade de trabalho era uma das características que o distinguiam.
A maior parte dos políticos não tem hábitos de trabalho – e realiza-se a falar, a falar interminavelmente.
Basta ver os numerosíssimos programas de debate que há por aí e que integram políticos no activo – Prós e Contras, Corredor do Poder, Estado da Nação, Quadratura do Círculo, Frente-a-Frente, etc., etc. – para ver até que ponto os políticos gostam de falar.
Cavaco tinha a enorme vantagem de preferir a acção à palavra.
Na mesma linha, este Governo distingue-se dos outros por ser formado por pessoas que não provêm da classe política, que têm o seu emprego e que estão habituadas a trabalhar.
Olha-se para o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e vê-se que é uma pessoa com hábitos de trabalho enraizados; olha-se para o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, e vê-se o mesmo; olha-se para a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, idem; olha-se para o ministro da Saúde, Paulo Macedo, a mesma coisa.
Claro que isto irrita a classe política.
Porque a classe política, gostando pouco de trabalhar a sério, não gosta de ser confrontada com pessoas que trabalham.
Uma das coisas que me faziam imensa impressão no Governo anterior era os ministros, a começar pelo primeiro-ministro, passarem a vida a cirandar pelo país.
As televisões mostravam Sócrates de manhã a visitar uma fábrica, à hora do almoço a fazer um discurso a empresários, à tarde a visitar uma Câmara, à noite a participar numa reunião do partido ou a dar uma entrevista a um canal de TV – e eu interrogava-me: «Mas a que horas este homem trabalha?».
«Se para dirigir um jornal eu tenho de passar horas e horas no gabinete, como é possível governar o país num vaivém constante entre fábricas, escolas, Bruxelas, reuniões partidárias, Parlamento, recepções, entrevistas, almoços e jantares?».
«Quando é que este homem tem sossego para se sentar à mesa e pensar?».
E com os ministros passava-se o mesmo: Pedro Silva Pereira, António Mendonça, Vieira da Silva, Augusto Santos Silva, Isabel Alçada, Ana Jorge, Gabriela Canavilhas, andavam constantemente numa roda-viva, não se percebendo a que horas trabalhavam.
Este Governo projecta a impressão oposta: tem uma imagem ascética.
O ministro das Finanças parece um monge: é fácil imaginá-lo de sandálias, vestido da cabeça aos pés com um hábito castanho e uma corda amarrada à cintura.
Mostra-se pouco, fala pouco (e baixinho), parece mais de fazer do que de falar.
E esse é o grande trunfo deste Executivo, por muito que proclamem o contrário.
Como foi o grande trunfo de Cavaco: diferenciar-se da classe política tradicional, fazer as coisas de outra maneira.
Quando se diz que as pessoas estão cansadas da política e desiludidas com os políticos, isso é verdade.
Só que alguns dos que dizem isso são precisamente aqueles de quem as pessoas se cansaram…
As pessoas cansaram-se de um certo estilo de fazer política verbal, e cansaram-se das pessoas que o interpretaram.
Todos sentiam que era preciso começar a fazer política de maneira diferente.
Daí que este Governo esteja no caminho certo.
Ele foi uma lufada de ar fresco, capaz de reconciliar parcialmente as pessoas com a política.
Porque corresponde a uma mudança de protagonistas e a uma mudança de estilo.
Esse corte com o passado é decisivo.
Oxalá os ministros continuem assim: ascéticos, contidos, mais trabalhadores do que faladores.
O país agradece.
P.S. – O início do Verão foi animado por uma rocambolesca história de espiões à portuguesa que meteu Manuela Moura Guedes, Bernardo Bairrão, o primeiro-ministro e um agente (nada) secreto que transitou para a Ongoing. O enredo foi mau, a credibilidade reduzida – e no fim ninguém percebeu coisa nenhuma.
Por: José António Saraiva/Sol





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