No dia em que os portugueses, pela primeira vez desde que o resgate do
país pela troika começou, mostraram uma efectiva repulsa pelas políticas
adoptadas, seria de questionar o papel das suas elites políticas. A
tradição portuguesa - uma longa tradição vinda da monarquia antiga e
que, na verdade, nunca foi interrompida - é marcada por dois aspectos
essenciais. Por um lado, nos momento onde houve abundância de riqueza,
esta foi confiscada por esses elites, confisco que redundou sempre em
esbanjamento, segundo o desejo de uma ínfima minoria. Por vezes, caíam
algumas migalhas para o resto da população, mas nunca mais do que
migalhas e nunca uma política de real desenvolvimento do país e das suas
pessoas. Por outro lado, faltando o dinheiro, as elites utilizaram a
rapina dos pobres e o pau, por vezes em alternativa, outras vezes em
conjunto, para manterem um estatuto que muito raramente mereceram.
Há
uma coisa que os portugueses ainda não perceberam, mas que chegou o
momento de ser pensada. Não se trata já de substituir um grupo
governante por outro, mas de, através da pressão popular e da
intervenção cívica, limitar drasticamente o poder das elites políticas.
Os movimentos inorgânicos como os de hoje têm um ponto que mereceria
atenção: o da rejeição do arbítrio. Em Portugal, a classe política, por
culpa dos cidadãos ou do seu desinteresse, tem demasiado poder e teve
todas as oportunidades para conduzir o país a onde chegou, para fazer
todas as malfeitorias que lhe passou pela cabeça. Chegou a hora de
controlar a classe política composta por gente em que a responsabilidade
é inversamente proporcional à desmesura do ego.
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